Deputado Flaviano Melo

Acre, um Estado que optou por ser brasileiro | Imprimir |  E-mail
Só após o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em 1988, o Acre passou a ser mais conhecido  pelo esforço e a luta de sua gente ao optar pela brasilidade. Antes disso, a borracha colocou o extinto território federal ao noticiário internacional das bolsas de valores.
Sua rica história foi privilégio de poucos. Até o início do século 20, o Acre pertencia à Bolívia. Crianças acreanas sabem disso. As demais crianças brasileiras ainda não estudaram a questão. Está em tempo.
Quando integrado ao Brasil como território, o Acre subdividiu-se em três departamentos: Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá, este, desmembrado em 1912 para formar o Alto Tarauacá, terra da biodiversidade. Unificado em 1920, o Acre elegeu representantes para o Congresso Nacional a partir de 1934. Em 15 de junho de 1962, o presidente João Goulart sancionou a lei que elevou o território à categoria de estado.
Verde
Mário de Andrade o considerava "o primo pobre da Nação". Limitando-se com os estados do Amazonas e Rondônia, o Acre adotou, definitivamente, a execução de políticas de desenvolvimento sustentável de florestas, missão que se tornou possível com esforço e boa vontade dos habitantes de seus 152,5 mil Km2. Parte dessa floresta foi transforma em unidades de conservação. O reconhecimento a essa conquista faz parte do ritual do dia-a-dia de cada acreano, do simples ao político e intelectual.
O Acre tem uma população superior a 600 mil habitantes, mais de 50% vivendo em Rio Branco. Sob o impulso do intitulado Governo da Floresta, o estado está investindo no desenvolvimento sustentável das riquezas animais e vegetais. O extrativismo e a pecuária sustentam a sua economia. A venda e a exportação de castanha, madeira, borracha e outros produtos, seja em natura ou beneficiados, movimentam o comércio estadual e garantem a integração do Acre ao mercado externo.
Embora não esteja aberto à visitação, o Parque Nacional da Serra do Divisor permite atividades de ecoturismo: caminhadas, passeio de barco, contemplação da flora e fauna, banhos de rio e cachoeira. Ele fica na fronteira com o Peru. A cidade mais próxima, Cruzeiro do Sul, está a dois dias de barco. Tem hotéis e restaurantes.
Impostos, bravura e independência
Em busca de assegurar o mando na região, em 1899 os bolivianos passaram a recolher imposto em solo acreano. Foi instalado um posto alfandegário em Puerto Alonso, atual município de Porto Acre. Indignados com a ocupação, os acreanos fizeram uma revolução armada, dando origem a um conflito de proporções internacionais.
Aguerridos, os seringueiros cercaram o posto e expulsaram os funcionários. Foi então, que surgiu no Acre o jornalista espanhol Luís Galvez de Arias, tido como aventureiro e apelidado de "Imperador". "Queremos um estado independente", bradou o ousado Galvez Arias. Suas atitudes firmes encorajaram outras pessoas, principalmente porque o governador do Amazonas, Ramalho Júnior, na época o apoiou. E nasceu o estado independente do Acre, em 14 de julho de 1901.
Sitiada no final de janeiro de 1903, Puerto Alonso rendeu-se ao gaúcho Plácido de Castro e foi definitivamente incorporada ao território nacional. Histórias de libertação incluem uma notável "expedição dos poetas", viagem fluvial de estudantes e intelectuais do estado do Amazonas sob a liderança de Orlando Corrêa Lopes. Eles embarcaram com entusiasmo no navio Solimões, rumo ao Acre, entretanto, por falta de planejamento e estratégia, fracassaram.
Bolivian Syndicate
A serviço do cônsul boliviano em Manaus, Galvez Arias constatou que os bolivianos, em mais uma investida, pretendiam negociar a transferência do controle do antigo território para o Anglo-Bolivian Syndicate, de Nova Iorque. O contrato denominava-se chartered companies, comum na África, naquela época. Por ele, qualquer empresa concessionária, européia ou americana, assumia a soberania sobre áreas que desejava explorar economicamente. E tinha o monopólio sobre a produção, além dos direitos fiscais e do papel de polícia.
O contrato consolidou-se. Associados, a U.S. Huber Company e o Bolivian Syndicate adquiriram a borracha, mas trouxeram junto os Estados Unidos e suas ingerências. No meio da associação boliviana com os americanos, surgiu a rebelião liderada pelo gaúcho Plácido de Castro, seguida da ação diplomática de José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco. "Monstruosidade legal" foi como ele classificou a concessão boliviana ao Bolivian Syndicate.
Vitória da diplomacia
Ex-oficial das forças federalistas que atuaram entre 1893 e 95 no Rio Grande do Sul, com noções de agrimensor, Plácido de Castro obteve o apoio do governador do Amazonas, Silvério Nery, e organizou a resistência aos bolivianos. Isso resultou na proclamação da segunda independência do Acre, anunciada no arraial de Xapuri no dia 7 de agosto de 1901.
A luta acreana consolidou-se após a assinatura do Tratado de Petrópolis, pelo Barão, em 17 de novembro de 1903. Por meio do tratado que significou uma das maiores vitórias da diplomacia brasileira em todos os tempos, o País conseguiu a posse definitiva da região. Cedeu áreas de terras em Mato Grosso aos bolivianos e, ao mesmo tempo, pagou-lhes dois milhões de libras esterlinas, assumindo o compromisso de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (Porto Velho-Guajará Mirim). Guajará é vizinha de Guayaramerín, capital do Departamento do Beni.
Álvaro Lins, considerado o melhor biógrafo do Barão, disse: "O caso do Acre fora a princípio de geografia e história, depois, uma questão de ordem política e econômica"
Bandeira_do_Acre.svgSó após o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em 1988, o Acre passou a ser mais conhecido  pelo esforço e a luta de sua gente ao optar pela brasilidade. Antes disso, a borracha colocou o extinto território federal ao noticiário internacional das bolsas de valores.
 
Sua rica história foi privilégio de poucos. Até o início do século 20, o Acre pertencia à Bolívia. Crianças acreanas sabem disso. As demais crianças brasileiras ainda não estudaram a questão. Está em tempo.Quando integrado ao Brasil como território, o Acre subdividiu-se em três departamentos: Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá, este, desmembrado em 1912 para formar o Alto Tarauacá, terra da biodiversidade. Unificado em 1920, o Acre elegeu representantes para o Congresso Nacional a partir de 1934. Em 15 de junho de 1962, o presidente João Goulart sancionou a lei que elevou o território à categoria de estado. (Para ouvir o Hino do Acre, clique aqui).

Verde

Mário de Andrade o considerava "o primo pobre da Nação". Limitando-se com os estados do Amazonas e Rondônia, o Acre adotou, definitivamente, a execução de políticas de desenvolvimento sustentável de florestas, missão que se tornou possível com esforço e boa vontade dos habitantes de seus 152,5 mil Km2. Parte dessa floresta foi transforma em unidades de conservação. O reconhecimento a essa conquista faz parte do ritual do dia-a-dia de cada acreano, do simples ao político e intelectual.

O Acre tem uma população superior a 600 mil habitantes, mais de 50% vivendo em Rio Branco. O extrativismo e a pecuária sustentam a sua economia. A venda e a exportação de castanha, madeira, borracha e outros produtos, seja em natura ou beneficiados, movimentam o comércio estadual e garantem a integração do Acre ao mercado externo.

Embora não esteja aberto à visitação, o Parque Nacional da Serra do Divisor permite atividades de ecoturismo: caminhadas, passeio de barco, contemplação da flora e fauna, banhos de rio e cachoeira. Ele fica na fronteira com o Peru. A cidade mais próxima, Cruzeiro do Sul, está a dois dias de barco. Tem hotéis e restaurantes.

Impostos, bravura e independência

Em busca de assegurar o mando na região, em 1899 os bolivianos passaram a recolher imposto em solo acreano. Foi instalado um posto alfandegário em Puerto Alonso, atual município de Porto Acre. Indignados com a ocupação, os acreanos fizeram uma revolução armada, dando origem a um conflito de proporções internacionais.

Aguerridos, os seringueiros cercaram o posto e expulsaram os funcionários. Foi então, que surgiu no Acre o jornalista espanhol Luís Galvez de Arias, tido como aventureiro e apelidado de "Imperador". "Queremos um estado independente", bradou o ousado Galvez Arias. Suas atitudes firmes encorajaram outras pessoas, principalmente porque o governador do Amazonas, Ramalho Júnior, na época o apoiou. E nasceu o estado independente do Acre, em 14 de julho de 1901.

Sitiada no final de janeiro de 1903, Puerto Alonso rendeu-se ao gaúcho Plácido de Castro e foi definitivamente incorporada ao território nacional. Histórias de libertação incluem uma notável "expedição dos poetas", viagem fluvial de estudantes e intelectuais do estado do Amazonas sob a liderança de Orlando Corrêa Lopes. Eles embarcaram com entusiasmo no navio Solimões, rumo ao Acre, entretanto, por falta de planejamento e estratégia, fracassaram.

Bolivian Syndicate

A serviço do cônsul boliviano em Manaus, Galvez Arias constatou que os bolivianos, em mais uma investida, pretendiam negociar a transferência do controle do antigo território para o Anglo-Bolivian Syndicate, de Nova Iorque. O contrato denominava-se chartered companies, comum na África, naquela época. Por ele, qualquer empresa concessionária, européia ou americana, assumia a soberania sobre áreas que desejava explorar economicamente. E tinha o monopólio sobre a produção, além dos direitos fiscais e do papel de polícia.

O contrato consolidou-se. Associados, a U.S. Huber Company e o Bolivian Syndicate adquiriram a borracha, mas trouxeram junto os Estados Unidos e suas ingerências. No meio da associação boliviana com os americanos, surgiu a rebelião liderada pelo gaúcho Plácido de Castro, seguida da ação diplomática de José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco. "Monstruosidade legal" foi como ele classificou a concessão boliviana ao Bolivian Syndicate.

Vitória da diplomacia

Ex-oficial das forças federalistas que atuaram entre 1893 e 95 no Rio Grande do Sul, com noções de agrimensor, Plácido de Castro obteve o apoio do governador do Amazonas, Silvério Nery, e organizou a resistência aos bolivianos. Isso resultou na proclamação da segunda independência do Acre, anunciada no arraial de Xapuri no dia 7 de agosto de 1901.

A luta acreana consolidou-se após a assinatura do Tratado de Petrópolis, pelo Barão, em 17 de novembro de 1903. Por meio do tratado que significou uma das maiores vitórias da diplomacia brasileira em todos os tempos, o País conseguiu a posse definitiva da região. Cedeu áreas de terras em Mato Grosso aos bolivianos e, ao mesmo tempo, pagou-lhes dois milhões de libras esterlinas, assumindo o compromisso de construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (Porto Velho-Guajará Mirim). Guajará é vizinha de Guayaramerín, capital do Departamento do Beni.

Álvaro Lins, considerado o melhor biógrafo do Barão, disse: "O caso do Acre fora a princípio de geografia e história, depois, uma questão de ordem política e econômica"
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